O título é uma provocação, mas o post visa analisar quais os pontos principais para que um plano de sócios seja bem sucedido.
Há tempos os grandes clubes europeus se utilizam de programas de sócios para aumentar as receitas, e também como ferramenta de aproximação com seus torcedores. São como pontes de ligação entre o clube, patrocinadores e consumidores. Técnicamente, não é tão complexo desenhar e operacionalizar um plano de sócios, pois existem algumas premissas básicas, entre elas, a correlação entre contribuição x benefícios.
Os clubes brasileiros igualmente vislumbraram o grande potencial de receitas extras que esses planos podem proporcionar, mas a expressiva maioria fracassou, ou vêm fracassando. Evidentemente que existem, em tese, algumas pré-condições para o sucesso. Duas delas me parecem fundamentais.
A primeira, é saber capitalizar uma fase de sucesso. Parece fácil, mas não é. Clubes que atravessaram a década recém finda de forma muito bem sucedida, como São Paulo ou Santos, não conseguiram viabilizar resultados expressivos em planos desse tipo. Faltou algo, e que não teve a ver necessariamente com o desenho técnico do plano em si, mas com as ações de comunicação com seus torcedores. Apesar dos bons resultados em campo em muitos daqueles anos, faltou algum ingrediente na receita.
A segunda é simples. Diretoria que não inspira confiança, clubes que vivem em ebulição política, dificilmente obterão sucesso com planos de sócios. Torcedor é consumidor, é apaixonado, mas não é idiota. Poucos se disporão a contribuir com seu dinheirinho suado em ações empreendidas por diretorias pouco confiáveis. Mesmo que o produto seja bem feitinho. E essa sensação de confiança leva tempo para se estabelecer. Não acontece de um mês para outro, a não ser que o mês seja o de uma mudança muito significativa na política do clube. O Palmeiras pode ser um bom exemplo disso. O plano anterior era técnicamente ruim, foi reformulado, melhorado, mas não emplaca. Vai demorar para o torcedor palmeirense sentir que seu esforço de participação irá resultar em algo concreto e palpável.
E quais as histórias de sucesso ? Duas. Da mesma cidade. Internacional e Grêmio, levam a rivalidade até para o campo comercial.
Matemáticamente falando, sem dúvida o Inter é o plano mais bem sucedido. São 106 mil sócios captados em praticamente 3 anos. Mas o plano dos colorados obteve um resultado tão bem sucedido como fácil de explicar. Senão vejamos:
O Inter viveu na metade final da década a melhor fase de sua história, junto com a segunda metade da década de 70. Grandes times, ídolos, títulos inéditos, e solidez para disputar todos eles como um dos favoritos.
A torcida confia muito na diretoria, que é praticamente uma continuação da era Fernando Carvalho, o reinventor do clube nos anos 2000.
O plano é simples, relativamente barato e sem sofisticações, concede apenas descontos e preferências na compra de ingressos e artigos licenciados, mas possui um ingrediente motivador poderoso e único. O voto para presidente.
O resto foi “apenas” saber capitalizar tudo isso para obter a resposta do seu torcedor. Uma explicação lógica e sem mistérios.
Mas e o plano do rival Grêmio ? Os tricolores nos mesmos 3 anos conseguiram 53 mil sócios. Metade. Mas por que eu considero esse plano como o mais interessante de todos ?
Porque o Grêmio, ao contrário do rival, viveu uma década muito ruim, sem títulos expressivos e uma queda traumática para a série B.
O clube passou por problemas financeiros sérios, e diretorias instáveis.
O plano segue na mesma linha do rival, com o mesmo desenho, mas com uma enorme desvantagem. O sócio-torcedor não vota para presidente (o Grêmio não mudou seu estatuto).
Lendo esses pontos, fica claro que o plano colorado tinha tudo para dar certo, e o dos tricolores tudo, ou quase tudo, para apresentar resultados modestos. Entretanto, colocando os pontos em confronto, os 106 mil do Inter não me impressionam tanto quanto os 53 mil do rival. Esse sim é um “case” que precisa ser muito bem analisado. Será que apenas a rivalidade explica esse resultado ? Quem sabe.
Confesso que sinto uma atração irresistível pelo que não consigo explicar. Pelo que me desafia e me faz quebrar a cabeça para entender.
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